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Notas Sobre Josué - Parte 2/3

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ÍNDICE


Notas Sobre Josué

Parte 2/3

J. G. Bellett


Os Gibeonitas: Josué 9

 

Neste livro de Josué, repleto de diversas ilustrações morais, somos apresentados aos gibeonitas e, por meio deles, a uma lição muito séria e importante.

 

Foi a fé que levou Raabe de Jericó a se aliar a Israel, como vimos em nossa meditação sobre o capítulo 2, e como aprendemos tanto em Tiago quanto no capítulo onze da Epístola aos Hebreus. Pois ela acolheu o povo de Deus em seu dia de fraqueza, enquanto ainda estavam no deserto – como Rute mais tarde, que desejou ir com Noemi, ainda exilada e pobre, ou como Abigail, que reconheceu Davi no dia em que ele precisava de um pedaço de pão.

 

Isso é fé. Isso é aceitar o Filho do Homem sob o sinal do profeta Jonas. Mas esse não foi o caminho dos gibeonitas. Durante o intervalo desde Raabe até eles, Israel atravessou o Jordão. Nas palavras da Escritura, “o Dono da casa Se levantou e fechou a porta”. O juízo havia começado a seguir seu curso. Era tarde demais para que a fé se exercitasse.[1] Israel não estava mais distante, mas havia chegado; não mais invisível, mas no meio deles. Seu dia de poder havia chegado. Foi, portanto, o temor por si mesmos, e não a fé, que moveu os gibeonitas a buscar uma aliança com Israel. Foi como o clamor: “Senhor, Senhor, abre-nos a porta” (ARC) – e nos é dito que tal clamor é em vão.

[1] O que é dito sobre os gibeonitas em Josué 11:19-20 pode levar a uma aceitação condicional dessa interpretação. Compare com a de Raabe. A deles não representa fé, como a dela. O medo diante da presença de um ser forte e vitorioso foi o que motivou suas ações. 

 

Os gibeonitas tinham ouvido falar do que Josué fizera em Jericó e Ai; isto é, ouviram falar do juízo na terra depois que Israel atravessou o Jordão, ou, como dissemos, quando o Dono da casa havia Se levantado. Raabe ouvira falar do que o Senhor havia feito no Mar Vermelho e no deserto (veja 2:10; 9:3). Mas isso faz uma grande diferença. É fácil ser benigno quando as dores nos acometem; mas essa benignidade não provém da fé, mas do temor. É natural, aliás, necessária. Os gibeonitas alegam ter sido movidos pelo mesmo relato que comoveu Raabe (vs. 9-10), mas isso era falso, como o versículo 3 já nos mostrou. Eles eram como a multidão que seguia o Senhor, não porque viram os milagres, mas porque comeram dos pães e ficaram satisfeitos. Eles buscavam Josué por aquilo que pudessem obter, conseguir ou produzir por meio dele; Eles o procuraram por si mesmos, em busca da libertação que agora percebiam necessitar, visto que o juízo os havia alcançado.

 

Essa era a postura moral dos gibeonitas. Não havia neles fé para reconhecer o Deus de Israel. Josué deveria ter percebido tudo isso, mas dormiu, e o joio agora está semeado no campo. Os príncipes fazem uma aliança com esses homens de Gibeom, e os incircuncisos encontram um lugar no meio de Israel. Israel pode agora fazer o melhor que puder, dadas as condições e os resultados de sua própria negligência, mas o joio não pode ser arrancado agora, e ali, nos campos de Israel, eles estão destinados, em breve, a causar problemas suficientes àqueles que os permitiram entrar (veja 2 Samuel 2:1).

 

Certamente, podemos extrair uma lição importante de tudo isso.

 

Aprendemos a diferença entre a fé que forma uma aliança presente com Cristo, a qual Ele reconhecerá no futuro dia da Sua glória, e o temor que O busca após o dia do juízo já ter se iniciado. É nesta era da Sua fraqueza que a fé O reconhece, e então a hora do juízo, e a eternidade de glória, cada uma à sua maneira, nos pertencem.

 

Aprendemos também sobre o perigo, bem como sobre o mal, de sermos negligentes no serviço da casa de Deus. “Dormindo os homens, veio o Seu inimigo, e semeou joio”. Nossa negligência produz danos, cujos frutos amargos podem ser colhidos depois de muitos anos.

A Conquista da Terra: Josué 10-12

 

A terra, como vimos, foi adentrada em nome do Deus de toda a Terra. Raabe, que teve fé, foi libertada. O arraial foi purificado da maldição que o transformou, por um instante, em uma Jericó ou uma Babilônia. Jericó e Ai caíram. Os gibeonitas obtiveram entrada ou um assentamento, como joio no meio do trigo, em juízo sobre os homens que dormiam, e agora a espada do Senhor e de Josué está prestes a completar a conquista da terra.

 

É um dia de juízo. A vingança da justiça será executada sobre os amorreus, que já haviam enchido a medida de seus pecados. A longanimidade de Deus não teria mais que esperar (Gênesis 15:16).

 

É um dia de juízo para essas nações, assim como o dia de Noé o foi para o mundo antes do dilúvio, ou o dia de Ló para as cidades da campina, ou o dia de Moisés para a terra do Egito. A espada de Josué, como já dissemos, deve ser interpretada como a de um juiz, e não a de um conquistador. A entrega da herança aos filhos de Abraão pode parecer a principal causa dessa grande ação, mas na verdade se fundamenta no fato de que a medida da injustiça dos amorreus estava agora cheia. A espada da conquista para Israel é a espada do juízo sobre os cananeus – e o povo do Senhor teve que esperar o amadurecimento do pecado das nações e o juízo do Senhor, antes de poder alcançar sua herança (veja Gênesis 15:16).

 

Isto é exatamente o que se sabe neste exato momento. O reino milenar, que é a herança de Cristo e os santos, não será alcançado até que o mundo tenha enchido sua medida e a espada do juízo o tenha alcançado. Aquilo que julga o mundo abre caminho para o reino e para a herança, assim como a espada de Josué fez. Ouçam as diferentes vozes nos primeiros versículos de Apocalipse 14.

 

Mas, além disso, sendo a espada de Josué realmente a espada do Senhor, e sendo as vitórias do grande Príncipe de Israel realmente o juízo de Deus, vemos o próprio Senhor Deus intervindo diretamente. Saraiva cai do céu na batalha de Gibeom, e o Sol e a Lua param em seu curso até que Josué vingue o Senhor de Seus inimigos e conquiste a vitória para o Seu povo. Assim havia sido nos dias de outros juízos anteriores, pois é a “Deus, a Quem a vingança pertence”. Deus é o Juiz, como foi sinalizado desde o princípio. Pois foi o próprio Senhor Quem tomou em Suas mãos o castigo de Caim (Gênesis 4:15). Foi o próprio Senhor Quem fez brotar as águas de Noé. Foi o próprio Senhor Quem fez chover fogo e enxofre sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. Foi o próprio Senhor Quem enviou praga sobre praga sobre a terra do Egito e, por fim, olhou através da coluna de nuvem e submergiu os exércitos egípcios no Mar Vermelho.

 

Assim, se lermos o Apocalipse, que descreve para nosso aprendizado o juízo do mundo pouco antes da vinda da glória ou do reino, descobriremos que será o próprio Senhor Quem abrirá os selos e liberará as visitações da ira; e, por fim, como o Cavaleiro do cavalo branco, derrotará toda a força confederada e apóstata do mundo. Esse Cavaleiro, vindo do céu para julgar a besta e seu exército, é como o Senhor olhando através da nuvem para o exército do Egito.

 

De fato, Josué parece ter captado de forma impressionante a essência do momento. As pedras de saraiva, reconheço, podem ter lhe indicado que o Senhor nos céus estava assumindo a batalha como Sua. Mas a história de outros dias de juízo, como os que mencionei, de Caim, Noé, Ló e Moisés, era suficiente para lhe mostrar que Ele era o próprio Executor do juízo, e Josué, portanto, colocaria agora as armas de guerra e os instrumentos de vingança em Suas mãos. Ele captou de forma primorosa, repito, a essência do momento. Ele nos lembra o João dos evangelhos. João representa aquela percepção e empatia espiritual que permitia descobertas rápidas e quase instintivas de seu Senhor. E Josué agora profere seu célebre oráculo, como se estivesse ouvindo e observando as grandes ordenanças nos céus, sem qualquer reserva ou contenção em seu espírito, com toda a liberdade e autoridade: “Sol, detém-te em Gibeom, e tu, Lua, no vale de Ajalom”. Ele sabia que o juízo era obra de Deus; e o entregaria em Suas mãos. Sabia que Deus lutava por Israel, e ele confiaria a batalha a Ele. Esse tom de decisão, fruto da clareza à luz e do conhecimento da mente de Cristo, é algo muito nobre. Os espias, no segundo capítulo, não hesitaram nem tiveram dúvida ao prometer segurança a Raabe. Não atravessaram o Jordão novamente para obter a autorização de Josué. Sabiam que tinham título para prometer a salvação a ela, pecadora como era, cananeia como era. Tinham o espírito de fé e eram vasos da luz de Deus. “Julgaram em si mesmos”. Eles sabiam qual era a boa, agradável e perfeita vontade de Deus naquele momento; e assim, aqui, no décimo capítulo, Josué não se demora nem hesita, mas age prontamente e com decisão, e isso, inclusive, além do que se poderia considerar as mais elevadas prerrogativas de uma criatura, mesmo em graça. Ele falou aos céus, dando ordens ao Sol e à Lua.

 

Maravilhoso! O Espírito, registrando tal momento, faz uma pausa para admirá-lo. “E não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, ouvindo o Senhor assim a voz de um homem”.

 

Uma ocasião verdadeiramente grandiosa; mas há dias semelhantes depois, e ainda assim não há espanto neles. Jesus comanda os ventos e as ondas. Ele detém as forças da natureza, sejam elas celestiais ou terrenais, mas o Espírito, que também registra esses feitos, não os considera espantosos, pois de fato não eram. A voz de Josué era apenas “a voz de um homem”, como lemos, Cristo era “sobre todos, Deus bendito eternamente”. Mas este momento pode ser de plena admiração para nós. Josué sabia que a batalha pertencia ao Senhor em favor do Seu povo, e que o juízo ou a vingança também Lhe pertenciam, e ele desejava que o Sol e a Lua esperassem e dessem tempo ao Senhor até que Ele concluísse Suas obras, Suas obras poderosas e estranhas, Suas obras de misericórdia e de juízo.

 

E, como lemos adiante nestes capítulos, o Senhor endurece o coração dos cananeus neste seu dia de juízo, assim como anteriormente havia endurecido o coração de Faraó em seu dia de juízo, e como tornará, em breve, insano o mundo antes de julgá-lo, enviando a operação do erro. O coração dessas nações dos amorreus estava agora endurecida a ponto de vir contra Israel para a batalha e investir contra os grossos escudos do Todo-Poderoso, como lemos; ou, como lemos ainda, para recalcitrarem contra os aguilhões no espírito insensato da autodestruição.

 

E aprendemos igualmente com esses capítulos que o exército conquistador de Israel retornou a Gilgal, onde o arraial estava montado. Gilgal havia sido o local de sua circuncisão, e a circuncisão era o sinal de sua nova condição. Ela havia removido o opróbrio do Egito. Tudo o que é passado, é passado para um povo circuncidado ou batizado. Tais pessoas renunciaram a si mesmas. A circuncisão simbolizava o abandono, por parte de Israel, de tudo o que lhes pertencia e a adoção do Senhor como sua fonte de confiança e força, e o segredo de todas as virtudes neles contidas. “A circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. Ela contradiz e revela a carne, e se glorifica no Senhor. E quando tal coisa poderia ser lembrada de forma mais apropriada? Quando Gilgal pode ser revisitada de maneira mais oportuna, senão após a vitória? A vitória pode ensoberbecer. É difícil usar um dia glorioso com modéstia. Mais difícil ainda é usar uma vitória do que conquistá-la, como já foi dito. Abraão a usou bem. Em espírito, ele retornou a Gilgal depois dela, e assim também o exército de Israel ali. “Quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis”. As honras que haviam conquistado foram depositadas no altar de Deus, ou aos pés do Senhor. A circuncisão deles foi lembrada, eles próprios foram despojados de si mesmos, agora eram um exército de conquistadores circuncidados. A vitória deles era a d’Ele. “Então Josué, e todo o Israel com ele, voltou ao arraial em Gilgal” (veja cap. 5:9; 9:6; 10:6, 43). Siló será o lugar do tabernáculo em breve (cap. 18); Gilgal é agora o lugar do arraial, e também do exército após suas vitórias.

 

O catálogo dos reis e seus países, agora reduzido, encerra esta seção do nosso livro: “E”, como lemos, “a terra descansou da guerra”

A Divisão da Terra: Josué 13-21

 

A divisão da terra segue-se após a sua conquista. Ela se torna herança de Israel assim que é tomada das mãos dos amorreus. Havia chegado o tempo do juízo do povo da terra, e juntamente com isso, havia chegado o tempo de colocar os filhos de Abraão na posse dela. Se os amorreus já haviam enchido a medida de seus pecados, Israel já havia enchido a medida de sua escravidão e de sua peregrinação. O vaso é purificado, e então o tesouro é colocado nele. Assim é sempre. Tem que ser assim. Estas são as exigências da santidade e da graça, e tais exigências certamente devem ser satisfeitas. Esta é a imagem do modo de Deus agir, necessariamente assim, do princípio ao fim. Por que, então, a obra do Criador no princípio, se o descanso do Criador não havia de se seguir? E por que, então, os juízos que, no fim, devem limpar a Terra de suas opressões e corrupções, se o reino e a glória não haviam de se seguir? Um dia milenar há de vir após os juízos, assim como o descanso do Criador sucedeu à Sua obra, ou como o novo mundo surgiu de debaixo do juízo do antigo por meio do dilúvio; ou como a sorte, no dia de Josué, sucedeu à espada, como a divisão da terra, sucedeu a conquista da terra; ou assim como as vitórias de Davi abriram caminho para o cetro, o cetro de paz de Salomão (veja Números 33:50-56). Tudo isso é seguro e simples: santidade e graça, como dissemos, fazem essas exigências, e tais exigências devem ser satisfeitas da maneira mais perfeita de Deus.

 

Mas há mais. A terra, agora tomada das mãos dos ímpios e feita a porção dos eleitos de Deus, deve ter certas características novas e adequadas gravadas sobre ela. Isso também precisa ser assim. Se o Senhor age, é para conduzir a Si mesmo ao descanso; se Ele julga e elimina a iniquidade, é para conduzir-Se ao reino; e então, assim que Ele entrar em Seu descanso, ou assumir Seu reino, Seu descanso e Seu reino terão características impressas neles, dignas de Sua mão e presença. O novo mundo após o dilúvio testemunhou Sua adoração e Seu governo, o altar e a espada de Noé nos contam isso. Eles deram caráter àquele novo mundo. Os dias de Salomão carregavam suas marcas adequadas da mesma maneira. Debaixo de suas videiras e figueiras, Israel comia, bebia e se alegrava, em número tão grande quanto os grãos de areia da praia; o templo foi construído; a paz fluía como um rio; e os reis distantes da terra esperavam pelo Rei em Jerusalém. Assim, como sabemos, o mundo milenar terá os vestígios da presença das glórias de Cristo em toda parte. Ele carregará suas próprias características de forma profunda e brilhante. Será um mundo redimido do homem e de Satanás e tornado do Senhor; e, como pertencente ao Senhor, terá seus próprios novos frutos e características, exuberantes, viçosos e florescentes sobre ele, que revelarão a Quem pertence e o que ele é.

 

E assim se vê no desenrolar destes capítulos. A terra de Canaã, estando agora na possessão do povo de Deus, ostenta muitos e muitos emblemas que proclamam suas novas condições, tais como os amorreus nunca colocaram nem jamais poderiam ter colocado sobre ela. Assim, ela torna-se um santuário, o cenário e o testemunho da adoração a Deus. O tabernáculo é erguido em Siló. Em toda a sua extensão, torna-se, como falamos, um mundo religioso, a sede de uma ordem religiosa, com ministros de Deus dotados e estabelecidos em todas as partes do país, ocupando-se continuamente no serviço a Deus. Em toda a sua extensão, também se faz provisão para a manutenção da justiça entre os homens. A instituição das cidades de refúgio demonstra isso, pois ali o inocente deveria encontrar abrigo até que uma questão duvidosa entre ele e seu próximo pudesse ser resolvida, segundo a verdade e a justiça.

 

Tais eram algumas das grandes e adequadas características gravadas sobre a terra agora resgatada dos incircuncisos e feita a porção do povo de Deus. Eles constituem a expressão plena de um mundo religioso, da Terra trazida de volta a Deus. Canaã estava agora purificada pelos juízos, distribuída entre as tribos do Senhor, tornando-se o cenário da adoração divina, a Igreja e o Estado unidos, e os fins da santidade de Deus, assim como os fins da justiça entre os homens, estavam assegurados. Era um pequeno mundo, feito de Deus – uma amostra da Terra restaurada, ou trazida de volta a Ele – uma sombra dos bons dias que virão, quando o mundo inteiro, a Terra em sua extensão e largura, tomada pelo Senhor, terá os sinais de sua santificação, o conhecimento de Sua glória cobrindo-a como as águas cobrem o mar, o nome de Jesus se elevando a cada sacrifício da manhã e da tarde, e o cetro da justiça mantendo tudo em santa ordem em todas as condições e relacionamentos dos homens.

 

Contudo, encontramos algo de outra natureza na verdadeira condição das coisas. A terra ainda não estava totalmente conquistada, embora estivesse totalmente dividida; e isso era assim porque Israel havia de ser colocado à prova. Eles foram colocados na possessão da terra pela graça do Deus de seus pais, mas deveriam mantê-la como um povo ligado à obediência, sob a lei que eles mesmos haviam desafiado, ou ao menos assumido, no Monte Sinai. Em certo sentido, portanto, eles agora possuíam sua herança; em outro, não a possuíam. E, consequentemente, ao longo destes capítulos, lemos uma linguagem tão diversa quanto a seguinte. Pode soar dissonante e transmitir a sensação de inconsistências, mas tudo está moral e belamente correto quando, no devido tempo, nos familiarizamos com as condições do povo que agora habitava a terra.

 

A linguagem a que me refiro encontra-se nestas duas passagens: “Desta maneira deu o Senhor a Israel toda a terra que jurara dar a seus pais; e a possuíram e habitaram nela. E o Senhor lhes deu repouso de todos os lados, conforme a tudo quanto jurara a seus pais; e nenhum de todos os seus inimigos pôde resisti-los; todos os seus inimigos o Senhor entregou-lhes nas mãos”. E novamente – “Era, porém, Josué já velho, entrado em dias; e disse-lhe o Senhor: Já estás velho, entrado em dias; e ainda muitíssima terra ficou para possuir”.

 

Ora, essas passagens, e outras que poderiam ser citadas, soam como discordantes e parecem historicamente inconsistentes; mas, moralmente, ou segundo as condições em que Israel se encontrava agora em sua herança, tudo é correto e compreensível. Eles não foram estreitados em Deus, que estava pronto para estabelecê-los plenamente, mas poderiam estar estreitados em si mesmos e perder a terra. Parte da terra ficou por ser conquistada, mas toda ela foi dividida para que Israel fosse colocado à prova. Assim, todo estado de coisas é simples e fácil de entender. Deus era fiel e manifestaria o cumprimento de todos os Seus compromissos graciosos. Israel ainda precisava provar sua fidelidade. (Aprendemos como eles falharam de imediato. O Boquim de Juízes 2 nos conta isso.)

 

A terra totalmente dividida pode nos dizer como o Senhor foi fiel e lhes deu tudo o que foi prometido, como lemos aqui; os habitantes apenas parcialmente subjugados podem nos dizer que Israel ainda precisava ser provado e que ainda não tinha plena possessão da terra, como também lemos aqui.

Calebe: Josué 14-15

 

Será que temos dado a Calebe o mesmo respeito, ou dedicado à sua história a atenção que deveríamos? Perdemo-lo de vista em meio à narrativa mais ampla e brilhante de Josué. Mas não deveria ser assim, pois ele brilha em sua própria esfera no firmamento da Escritura e deixa atrás de si traços que bem poderíamos desejar reproduzir ou retrilhar em nós mesmos.

 

Nós o vemos em Números 13:14, e o encontramos ali, de fato, mais zeloso do que Josué. De qualquer forma, ele alcança tão boa reputação quanto Josué.

 

Certamente a graça será soberana; e é algo de uma bênção imensa quando podemos nos curvar à sua soberania, embora, em seus arranjos de alta prerrogativa, ela possa nos tratar de maneira que a natureza ressentiria, e nos conceder apenas uma bênção de Manassés, ou seja, uma bênção da mão esquerda. Portanto, Calebe não ousaria reclamar por um momento sequer que Josué estivesse mais próximo de Moisés do que ele; mas, para o alívio de seu coração (se ele sofresse com tal provação), ele poderia ter se lembrado de que, antes do dia de Números 13:14, mesmo na época de Êxodo 17, Josué estivera ao lado de Moisés, e que naquela ocasião ele próprio não estivera com ele.

 

Ainda assim, podemos perfeitamente entender que a natureza possa ter sentido um aperto no coração quando, depois de Moisés, Josué se torna o principal no arraial e Calebe se torna subordinado, como vemos no capítulo 14. Mas ele suporta isso de maneira bela, e eu me pergunto: não é tão belo se alegrar com a frutificação de outro quanto nós mesmos sermos frutíferos?

 

Sem inveja ou ressentimento maculando seu espírito, Calebe busca o apoio do homem de quem, em sua juventude, fora companheiro e cooperador. Ele o utiliza em vez de invejá-lo. Ele não se importa que esta palavra lhe seja dirigida: “Dá o lugar a este”. O cântico “Saul feriu os seus milhares, porém, Davi os seus dez milhares” o encontrou preparado. Calebe não se abalou.

 

Tal coisa possui grande beleza moral. Temos outro exemplo disso em Pedro, em João 13. Pedro vê João reclinado no seio do Senhor; mas, em vez de invejar aquele lugar mais próximo, ele o utiliza ali, pedindo-lhe que descubra o segredo daquele seio, onde ele, embora mais velho dos dois, não estava reclinado. E assim também Calebe, aqui no capítulo 14. Ele utiliza Josué em vez de invejá-lo.

 

De fato, eu poderia ter observado uma graça semelhante em Moisés, quando, ao ouvir que Eldade e Medade estavam profetizando no arraial, ele imediatamente foi até lá para que pudesse ouvi-los pessoalmente. Moises repreendeu o ressentimento que teria tido ciúmes por ele.

 

É estranho, eu admito, que tenhamos que parar e admirar tais coisas, mas sabemos que podemos fazê-lo. As corrupções têm um caráter profundo e odioso na alma, como todos nós bem sabemos, e esses exemplos de desembaraço ou de vitória não podem deixar de despertar nossa admiração.

 

Mas, novamente, Calebe era grandioso em outra característica. Ele era fiel entre os infiéis. Ele tinha sido assim no deserto e assim continua sendo agora na terra. Ele parece ter sido o único de todas as tribos de Israel que se recusou a formar aliança com os cananeus nativos. Assim como ele se manteve fiel com Josué entre os espias no deserto, ele continua sendo fiel entre as tribos na terra. Ele prossegue, espada em punho, até expulsar todos os que encontrou de suas possessões em Hebrom (cap. 15).

 

Além disso, ele valorizava sua herança. Seu coração estava voltado para o que Deus lhe havia prometido. Ele foi forte e corajoso para tomá-la, e então desfrutou dela com fervor e regozijo.

 

Essas são nobres qualidades de “um verdadeiro israelita”. Calebe se humilha diante da maneira e dos desígnios de Deus para obter título à sua porção; ele fixa seu coração nessa porção; ele é zeloso e valente em mantê-la, mesmo diante de todos que se opuseram a ele. Belos sinais, sem dúvida, de um santo de Deus! E certamente, posso dizer novamente, é bom, proveitoso e, além disso, agradável prestar um pouco mais de atenção a este distinto israelita do que tem sido comumente feito entre nós. Ele é a própria contradição de seus irmãos infiéis. Em vez de formar aliança com os cananeus, dando filhos ou filhas em casamento, ele publica esta nobre proclamação: “Quem ferir a Quiriate-Sefer, e a tomar, lhe darei a minha filha Acsa por mulher”. Ele guardou “o caminho do Senhor” tão puramente quanto Abraão sempre o fizera. Nenhum marido para sua filha, a não ser um dos designados pelo Senhor. Ele não construiria sua casa com madeira e palha.



J. G. Bellett

 

 

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