Soberania e Responsabilidade (Fevereiro de 2013)
- Revista O Cristão

- 20 de fev.
- 31 min de leitura

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Revista mensal publicada originalmente em fevereiro/2013 pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
W. Kelly
W. J. Prost
H. Smith (adaptado)
Girdle of Truth, 3:15 (adaptado)
Christian Truth (adaptado)
D. F. Rule
Christian Truth, Vol. 12 (adaptado)
W. Kelly (adaptado)
I. Watts
Soberania e Responsabilidade

Sempre que o coração é simples, ele se curva instintivamente à verdade de Deus. Se somos símplices (não digo convertidos), sentimos quão justos, saudáveis e bons são os caminhos de Deus. Tudo o que distorce ou mesmo ignora o caráter e a mente revelados de Deus é falso e sempre levará a deduções erradas. Mas, em geral, a falha não consiste tanto em deduções equivocadas da Escritura, e sim em preconceitos humanos e meras especulações teóricas. Existem especulações calvinistas tanto quanto arminianas. Parece-me fora de dúvida que ambos os sistemas são parciais e violam a verdade. A lição prática é cultivar confiança somente na Palavra de Deus. Podemos descansar em segurança, como somos obrigados a descansar, em Sua revelação.
Os melhores homens, os que mais ajudam no ministério, estão sujeitos a errar, e devemos tomar cuidado para que, apenas mudando os nomes, não caiamos na velha armadilha da tradição ou da confiança no homem. Nosso próprio dia não apresenta melhor segurança do que qualquer outro. Que possamos confiar em Deus e na Palavra de Sua graça, que são poderosos para nos edificar! Nossa única segurança está na sujeição simples e implícita à Palavra de Deus, e para isso precisamos da direção do Espírito. Mas nunca temos certeza de ter o poder direcionador do Espírito conosco, a menos que o olhar esteja fixo em Cristo.
W. Kelly
Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!
A revelação de Deus ao homem não é apenas uma maravilha, mas também um milagre. O fato de um Deus infinito desejar revelar-Se a Si mesmo e Seus caminhos para Sua criatura finita, o homem, é uma maravilha, mas que Ele é capaz de fazer isso é um milagre. Deus Se revelou ao enviar Seu Filho a este mundo como Homem, mas também nos deu Sua Palavra. Na Sua Palavra, vemos um Deus infinito comunicando a verdade sobre Si mesmo – verdade que também deve ser infinita. No entanto, essa infinita verdade está sendo dada às criaturas finitas e na linguagem humana que elas podem entender! Embora as palavras possam ser entendidas, a Escritura nos diz que elas também são “palavras... que o Espírito Santo ensina” (1 Co 2:13). Assim, embora as palavras sejam entendíveis, a verdade que elas transmitem está completamente além da compreensão do homem. Quando lemos a Palavra de Deus, maravilhamo-nos, por um lado, por sua simplicidade, a ponto que até uma criança possa entender o significado fundamental. Por outro lado, existem alturas e profundidades da verdade que vão muito além da capacidade do homem de raciocinar. Como alguém já disse: “Não há nada na Bíblia contrário à razão, mas há muitas coisas que estão além da razão”.
Verdades paralelas
Ao apresentar a verdade a respeito de Si mesmo, Deus frequentemente nos dá duas verdades paralelas, ambas claras e definidas, e ainda incapazes de serem totalmente reconciliadas uma com a outra na mente humana. O assunto desta edição é uma delas – a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Existem muitas outras na Palavra de Deus. Mencionaremos duas, apenas para mostrar isso. Uma que nos faz admirar e adorar é a Pessoa de Cristo. Ele é “sobre todos, Deus bendito eternamente”, ainda assim Se fez “semelhante aos homens”. O homem não pode entender a união perfeita de Deus e o homem em uma Pessoa, mas podemos aceitá-la e adorar. Em um sentido mais prático, temos na Escritura a exortação a respeitar e nos submeter à regra e autoridade dos presbíteros e guias na assembleia local. Por outro lado, “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. Novamente, é difícil reconciliá-las na mente humana.
A mente do homem
Onde isto nos leva? Antes de tudo, precisamos reconhecer que há revelações na Palavra de Deus que a mente do homem não pode entender completamente. Tentar fazer isso só nos levará ao erro, e quanto mais brilhante a mente de um homem, maior a probabilidade de ele cair em erro nas coisas de Deus, se ele confiar em sua mente natural. Verdadeiramente, Seus juízos são insondáveis, e Seus caminhos inescrutáveis (Rm 11:33). Estamos seguros na medida em que nos submetemos à linguagem e ao ensino da Escritura, mas o raciocínio nessas coisas nos levará a um caminho errado. Grande parte do erro que foi introduzido na Igreja não tem sido doutrina totalmente errada, mas distorções da verdade e falta de equilíbrio em lidar com elas. A esse respeito, G. V. Wigram fez estas excelentes observações:
“A heresia não é afastar-se da expressão da verdade, mas do Espírito da verdade; e é o espírito do herege que somos chamados a julgar como obra da carne, mais do que o fruto na forma de doutrina…”
“Se alguém, em vez de buscar a direção do Espírito Santo, se põe a manusear a Escritura segundo a própria mente, verá algo no livro que não está lá, ou o conteúdo do livro fora de sua ordem e importância relativa, etc. e aqui a heresia começa... ele não tratará a verdade como um homem guiado pelo Espírito trataria.”
“Assim como a heresia começa com a mente natural brincando com a verdade, o seu modo e meio de sucesso é levar os santos a ‘meditarem’ sobre pontos e questões difíceis, e fazê-los pensar em vez de orar”.
A verdade conhecida na comunhão
Isso nos leva ao segundo ponto a ser feito, a saber, que Deus tem um propósito em apresentar Sua verdade ao homem dessa maneira. Não é que Deus deliberadamente apresente a verdade de maneira a ser difícil de entender. Pelo contrário, é Deus procurando mostrar ao homem que não se deseja uma apreensão intelectual da verdade, mas “como está a verdade em Jesus” (Ef 4:21). Deus quer nossas afeições e nosso coração, e Sua verdade é comunicada a nós, para que possamos aprender mais sobre Ele mesmo e andar em comunhão com Ele. É verdade que existem alturas e profundezas na Palavra de Deus que nunca podemos esgotar e sobre as quais podemos meditar por toda a vida. No entanto, o objetivo de tudo isso deve ser uma caminhada mais próxima do Senhor e um crescente senso de Quem Ele é. Quando a Escritura é lida da maneira correta e com a reverência devida ao Senhor, reconhecemos que somente o Espírito Santo pode interpretá-las para nós. Quando lida corretamente, a Escritura sempre nos leva de volta ao seu Autor. Quando encontrarmos algo que está além do entendimento humano, buscaremos direção do Espírito Santo e nos curvaremos em humilde adoração e louvor pelo fato de um Deus como Esse ter escolhido revelar-Se a nós.
Desde o início da história do homem neste mundo, Deus quis a companhia e a comunhão de Sua criatura. Sua Palavra revela Deus para que nosso entendimento d’Ele possa ser aumentado, ao mesmo tempo em que nos mostra uma verdade infinita e glórias infinitas que estão além da compreensão do homem. No entanto, ao caminhar em comunhão com Deus, podemos desfrutar e apreciar essas preciosas verdades, mesmo que não as entendamos completamente. Podemos praticamente aplicar essas verdades em nossa vida, porque estamos caminhando com Aquele que as deu para nós. “Nós temos a mente de Cristo” (1 Co 2:16)
W. J. Prost
A Soberania de Deus e a Responsabilidade do Homem
Se o segundo capítulo de João prova a ruína do homem, o terceiro capítulo apresenta o completo afastamento do homem que está arruinado, a fim de trazer uma nova raça pela ação soberana de Deus no novo nascimento e pela obra de Cristo sobre a cruz (João 3:1-16). No entanto, a soberania de Deus não deixa de lado a responsabilidade do homem. Portanto, a responsabilidade do homem de vir à luz e crer no Filho é totalmente estabelecida (Jo 3:17‑21).
A soberania de Deus
As verdades profundamente importantes relacionadas à obra soberana de Deus no homem são desenvolvidas na história de Nicodemos, alguém que apresenta o homem em sua melhor condição. Contudo, aprendemos que todas essas excelências humanas não capacitarão o homem a entrar no reino de Deus, pois o que é carne é carne. Se não fosse a graça soberana de Deus trabalhando em nós, ninguém viria a Cristo.
Nicodemos havia chegado a uma conclusão correta sobre Cristo, com base na evidência exterior de milagres. Até ali, era uma conclusão justa que a mente humana é capaz de alcançar, mas, se não houver nada além da razão humana, deixa a alma à distância de Deus e sem nenhuma percepção da sua necessidade de Cristo. No entanto, havia em Nicodemos uma percepção de necessidade. Outros raciocinaram e permaneceram longe; Nicodemos também raciocinou, mas se aproximou, provando que, por trás de seu raciocínio, e desconhecido para si mesmo, havia uma obra de Deus em sua alma, produzindo um senso de necessidade e atraindo-o para Jesus. No momento em que um sentimento de necessidade é produzido na alma, há a consciência de que a religião da carne – uma posição oficial como um líder e uma reputação como um mestre – não são suficiente. Quando esse sentimento de necessidade é produzido pelo Espírito, haverá ao mesmo tempo a consciência de que somente Cristo pode satisfazê-la. Portanto, a alma é atraída para Cristo.
A necessidade de novo nascimento
Nicodemos chama o Senhor de Rabino (Mestre), tomando o lugar daquele que aprende. Sem um conhecimento real de si mesmo, ele imagina que é capaz de aprender se tiver alguém para ensiná-lo. A resposta do Senhor: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, imediatamente elimina a aptidão natural de Nicodemos para aprender, pois tudo isso é da velha natureza e inútil quando se trata de ser ensinado nas coisas de Deus. Pela razão humana e pelas habilidades naturais, podemos ver muitas coisas na natureza, mas não podemos ver o reino de Deus. Para isso deve haver uma obra de Deus na alma, aqui mencionada como novo nascimento. Essa obra de Deus é necessária não apenas para ver o reino, mas também para entrar nele. Para participar do reino de qualquer forma, seja moralmente ou em sua glória exterior, deve haver uma natureza adequada ao reino.
“O que é nascido da carne é carne” é uma afirmação de longo alcance. Mostra que nada segundo a carne servirá para reino de Deus. Temos então a necessidade deste novo nascimento, mas aprendemos mais, nos versículos 7‑8, que esse novo nascimento é inteiramente de Deus. Em contraste com Nicodemos e os líderes de Israel, que tomaram o lugar de mestres e ainda ignoravam suas próprias Escrituras, o Senhor falou de verdades das quais tinha perfeito conhecimento e testemunhou as coisas que tinha visto. Ele não apenas sabe o que há no homem (João 2:25), mas também sabe tudo o que está no coração de Deus. Ele conhece a grandeza da graça de Deus para suprir nossa necessidade. No entanto, o Senhor deve acrescentar: “não aceitais o nosso testemunho”. Quando Alguém que tem conhecimento perfeito testemunha e esse testemunho é rejeitado, isso prova a total desesperança do homem quando é deixado a si mesmo. Assim, temos uma exposição completa e o homem natural sendo colocado de lado em sua melhor condição. Tudo prova a grande verdade de que, quanto aos homens, “necessário vos é nascer de novo”, pois a palavra não implica uma modificação ou mudança da velha natureza, mas a comunicação de uma natureza inteiramente nova desde seu princípio. O Espírito Santo não trabalha no homem natural, como se transformasse um mau estado em um bom estado; ao contrário, é operado no homem aquilo que é inteiramente novo.
Coisas celestiais
Na primeira parte do capítulo, o Senhor falou de coisas terrenais – o reino de Deus e a necessidade de um novo nascimento para ver e entrar no reino. Nos versículos 12‑13, o Senhor passa a falar das coisas celestiais e da vida eterna e da necessidade da cruz. Se um novo nascimento é necessário para ver as coisas terrenais, muito mais é necessário para apreender as coisas celestiais. Há Alguém que, em graça, desceu do céu para trazer um relato das coisas celestiais – o Filho do Homem, que está no céu. Esta é uma expressão do mais profundo significado. Mostra que, embora o Senhor seja verdadeiramente Homem, ele é um Homem conectado ao céu. Ele pode visitar a Terra, mas Seu lar está no céu. Não é, no entanto, o pensamento de Deus que Cristo seja o único Homem naquela resplandecente cena. Ao ser o Filho do Homem levantado, as boas novas podem agora ser proclamadas: “todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. O efeito da obra de Cristo – de ser elevado em favor de todos que creem – é a vida eterna. O crente entra nos novos e celestiais relacionamentos do Filho do Homem.
A perspectiva de Deus
Nesta passagem, o evangelho é apresentado sob a perspectiva de Deus. São as boas novas do amor e propósito do coração de Deus, e não as boas novas daquilo que atende à nossa necessidade. A soberania de Deus é proeminente, e o evangelho é apresentado em toda a sua grandeza do lado de Deus. Nestes versículos, tudo remonta à sua fonte, seja em Deus ou no homem. Em Deus, a fonte de todas as Suas ações é encontrada em Seu amor; no homem, a fonte de todo o problema é encontrada no que ele é, e não simplesmente no que ele tem feito. O fim, no propósito de Deus, é a vida eterna em uma esfera celestial para aqueles que creem. Para aqueles que não creem, a ira de Deus permanece sobre eles para sempre.
A responsabilidade do homem
Se a primeira parte do capítulo apresenta a soberania de Deus, os versículos que se seguem trazem diante de nós a responsabilidade do homem. “Porque Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (Jo 3:17). Se o versículo 17 nos diz que podemos ser salvos apenas “por meio d’Ele”, os versículos seguintes nos dizem que aqueles que O rejeitam já estão “condenados”. Se eles rejeitam a Cristo, seja o que quer que tenham feito, já estão condenados. A responsabilidade do homem é baseada no fato de que “a luz veio ao mundo”, revelando o coração de Deus. O fato de o homem se tornar incapaz de aproveitar a luz não afeta sua responsabilidade. Os homens amam mais as trevas do que a luz; assim, por suas más ações, o homem se tornou incapaz de aproveitar a luz. As más ações do homem o levam a odiar a luz que expõe suas ações e perturba sua consciência. Uma consciência inquieta torna a luz insuportável, enquanto quem coloca a verdade em prática não temerá a luz.
Testemunho de Cristo
João deve acrescentar o fato solene de que “não aceitais o nosso testemunho”. Esse testemunho das coisas celestiais não interessa aos homens que não entendem nem desejam as coisas do céu. Ninguém, se deixado a si mesmo, recebe o testemunho de Cristo. O testemunho só pode ser recebido pela fé. Quem recebe o testemunho o faz sob a autoridade de Deus; ele sela que Deus é verdadeiro. A plenitude da verdade apresentada por uma Pessoa tão gloriosa leva, se recebida, à plenitude da bênção – vida eterna – mas se rejeitada, finalmente deixará aquele que rejeita sob o juízo de Deus para sempre.
H. Smith (adaptado)
O Homem é Responsável
O homem é responsável por viver diante de Deus de acordo com a posição em que se encontra como homem. Ele se afastou totalmente disso. Moralmente ele é um pecador. Mas o caráter da responsabilidade depende do relacionamento entre o homem e Deus, e entre homem e homem. Ele tem que agir de acordo com o relacionamento em que ele, como um homem, tem com cada um. Ele não deixa de ser responsável, mesmo que já não tenha o poder de cumprir suas responsabilidades.
Mas a salvação de Deus é uma outra coisa. Essa não é nossa responsabilidade. Cristo entra, em graça e amor, no estado no qual estávamos por causa do pecado, vindo para morrer e beber o cálice da ira, Ele mesmo, sem pecado, e sendo o Objeto do favor divino ao fazê-lo. Ele encerrou, para todos os que n’Ele creem e no amor do Pai n’Ele, toda a questão relativa ao primeiro Adão e à nossa vida pecaminosa. Nós reconhecemos que tínhamos inimizade contra Deus, e éramos condenados, culpados; isto Ele tomou sobre Si mesmo suportando tudo diante de Deus; isto é, toda a consequência de nossa responsabilidade como homens e A QUESTÃO ESTÁ ENCERRADA. Ele morreu tendo suportado isso; Ele morreu para o pecado uma vez, e aquele que está morto é libertado do pecado. Assim, em nosso Representante, cuja obra está disponível para nós, toda a questão de nossa responsabilidade como homens se encerrou em juízo e morte por mim, como eu havia descoberto quanto a mim mesmo. A vida na qual eu vivi e fui responsável perante Deus, é passada. Eu não existo mais, como vivendo como filho do primeiro Adão. “Se, pois, estais mortos com Cristo”, escreve o apóstolo, “quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças?” diz Paulo. “Já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu”. “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado”. Cristo glorificou perfeitamente a justiça de Deus a respeito de todo o mal, mas tudo passou, judicialmente, em Sua morte, naquilo em que Deus tinha que ser glorificado.
Cristo resolveu o caso do homem
Toda a questão de nossa responsabilidade, como vivendo a vida do homem diante de Deus, é resolvida pelo fato de Cristo suportar judicialmente as consequências diante de Deus e pela morte da vida em que estávamos como pecadores. Mas então Cristo é agora uma nova vida. Ele ressuscitou e estamos vivos para Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Eu vivo, mas não eu, mas Cristo vive em mim. Eu sou vivificado junto com Cristo e ressuscitado juntamente com Ele. Deus nos vivificou juntamente com Ele, tendo perdoado todas as nossas transgressões. Elas estão enterradas em Sua graça, e eu estou vivo de novo e sem elas.
Há mais do que isso. Existe uma justiça divina na qual Cristo está diante de Deus, como ressuscitado – isto é, na qual eu estou no poder de uma nova vida, ressuscitada com Ele. Eu sou feito justiça de Deus n’Ele. Como Ele é, eu também sou neste mundo. Isso está na realidade de uma vida em que vivemos, que é Cristo, e de uma justiça divina na qual estamos diante de Deus, que é Cristo. Eu vivo, porém não eu, mas Cristo vive em mim.
A nova e verdadeira responsabilidade
Qual é agora a minha responsabilidade? Aqui, então, entro no verdadeiro tipo de responsabilidade, em contraste com aquela responsabilidade sem esperança e que traz a convicção de pecado na qual entrei por causa da queda, uma responsabilidade que estava realmente de acordo com uma posição perdida, para que eu descobrisse minha ruína e condenação. Minha responsabilidade agora é uma responsabilidade que flui da posição em que estou. Aquele que diz que permanece em Cristo deve andar como Ele andou. Um filho de Deus – e filho para sempre –, deve andar como um filho de Deus, “como filhos queridos”. Minha responsabilidade é a de um Cristão. Devo andar como um, porque sou um, não para ser um.
Girdle of Truth, 3:15 (adaptado)
Eleição e Predestinação
Intimamente semelhante ao fato óbvio da soberania de Deus, está a verdade da eleição, ou seja, Deus, agindo em graça soberana, escolheu algumas dentre muitas pessoas com o objetivo de abençoá-las. Deus escolheu Abraão de um mundo que adorava ídolos e fez dele o depositário de Suas promessas e bênçãos, e quem desafiará Seu direito de fazer isso? Foi uma escolha de Deus, não de Abraão.
Quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos que Deus “nos elegeu n’Ele (em Cristo) antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor” (Ef 1:4). O ponto do tempo de Sua escolha não entra na questão de Sua soberania, pois ainda seria a Sua escolha se Ele escolhesse alguns agora ou a qualquer momento. O fato de Ele ter feito isso antes da fundação do mundo mostra que Ele tinha Seu pensamento e conselho sobre certas pessoas antes da existência do mundo. Ele as escolheu independentemente do mundo, e elas não haviam de ser do mundo (embora estando nele por um tempo), como o Senhor Jesus disse: “não são do mundo, como Eu do mundo não sou” (Jo 17:16).
Eleição
Pedro também escreveu sobre a eleição quando se dirigiu aos Judeus convertidos, dizendo: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2). Eles foram escolhidos por Deus dentre uma nação incrédula. Foi Sua escolha soberana, não deles. Como o Senhor disse a Seus discípulos: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” (Jo 15:16).
Os Cristãos, no entanto, não devem se apressar na conclusão de que, sempre que encontramos a palavra “eleito” na Escritura, ela se refere a nós, pois Deus elegeu outros em outras dispensações, como Abraão certamente foi em seus dias. O Senhor Jesus disse que quando o Filho do Homem vier, ele enviará Seus anjos “os quais ajuntarão os Seus escolhidos desde os quatro ventos” (Mt 24:31). Estes serão os Judeus eleitos dentre uma nação apóstata quando Ele voltar para reinar. Paulo também fala de anjos eleitos (1 Tm 5:21), que julgamos serem aqueles que foram guardados de pecar quando muitos outros o fizeram.
Predestinação
A predestinação é muitas vezes confundida com eleição ou escolha, e muitas controvérsias infrutíferas têm surgido daí. Embora Deus tenha colocado Seu coração sobre nós e nos tenha escolhido em Cristo antes da fundação do mundo, Ele predestinou para algo aqueles a quem assim escolheu. Então, lemos em Efésios 1:5 sobre aqueles a quem Ele escolheu: “Predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de Sua vontade”. Então, a predestinação é o propósito de Deus com relação àqueles a quem Ele escolheu. Ele nos escolheu dentre uma raça perdida “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor”, e depois nos marcou ou nos predestinou “para filhos de adoção”. É o lugar peculiar que pertence àqueles a quem Deus escolheu nesta era. Em Romanos 8:29, lemos que somos predestinados para serem “conformes à imagem de Seu Filho”. Novamente, é claro que a predestinação é separada e distinta da eleição ou escolha e é a designação dos escolhidos para uma certa porção.
Um servo do Senhor usou essa ilustração caseira para explicar a predestinação de Deus: um pai de uma família numerosa designou cada filho para uma certa vocação na vida – um filho deveria ser médico, outro contador e engenheiro.
Presciência
“Presciência” é outra palavra que muitas vezes é confundida com eleição e até usada para limitá-la, mas não há razão para tal confusão. Presciência é o conhecimento que Deus tem de certas pessoas em uma eternidade passada; é um conhecimento de pessoas, não o que elas fariam. (Não que Ele não saiba, como onisciente, tudo o que todos fazem e farão). Quando Deus escolheu ter um povo dentre uma raça perdida diante d’Ele em amor, Ele não apenas decidiu que um certo número de pessoas tinha que ser salvo para encher certos lugures no céu, mas Ele realmente conheceu essas pessoas individualmente. Em Romanos 8, lemos: “os que dantes conheceu”, não “aquilo que Ele antes conheceu”. Tampouco significa que Ele apenas conheceu o fato de que seríamos salvos, mas que conheceu cada um individualmente. Pedro também disse: “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”; Ele conhecia as pessoas que escolheu.
Não há lugar para descuido
Tudo isso é muito reconfortante para o coração da alma salva. É com satisfação que reconhecemos que foi tudo por Sua graça e que éramos os objetos indignos de Sua escolha soberana. Isso (como alguns alegam) não deve dar causa a nenhum descuido em nossa caminhada, pois Aquele que nos escolheu nos criou “em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10). Onde Pedro fala de eleição, o mesmo princípio é verdadeiro, pois nossa eleição de Deus é para santificação (ou separação) do Espírito “para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Somos separados pelo Espírito, não apenas para a aspersão do sangue de Jesus, mas para Sua obediência; isto é, devemos obedecer como Ele obedeceu. E como era isso? Ele como Homem sempre teve uma vontade que se deleitava com a vontade de Deus. Ele poderia dizer: “Deleito-Me em fazer a Tua vontade, ó Deus Meu”, e “Eu faço sempre o que Lhe agrada (o Pai)”. A Sua obediência não era uma obediência legalista, onde a vontade humana tinha que se submeter à vontade de Deus, mas Sua vontade sempre era fazer a vontade do Pai (exceto que Ele sentiu repulsa de ser feito pecado – uma parte de Sua perfeição divina).
Christian Truth (adaptado)
Graça e Soberania
A primeira alegação de Jó e o julgar a Deus
Jó disse: “Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não tenho iniquidade. Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como Seu inimigo. Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas” (Jó 33:9-11). Jó afirma que Deus não está sendo justo, pois ele se julgou inocente, mas Deus o tratou como inimigo e, usando Seu poder superior, pisou nele e em sua família.
Eliú responde: “Eis que nisso não tens razão; eu te respondo; porque maior é Deus do que o homem. Por que razão contendes com Ele, sendo que não responde acerca de todos os Seus feitos?”. Eliú defende os direitos soberanos de Deus.
Como soberano, Deus não nos deve nenhuma explicação para qualquer coisa que Ele faz. Na grandeza de Seu coração, Ele dá muitas explicações para muitas coisas que faz. Mas, no momento em que sinto que Ele me deve uma explicação por qualquer coisa, estou fora do meu lugar como um ser criado e estou no terreno da minha própria autossuficiência. “Por que razão contendes com Ele?” Graciosamente, Ele nos dá muitas respostas e deseja que procuremos respostas d’Ele para os porquês e para as razões da vida. Mas passamos para o lado errado da questão quando nosso coração as exige e pensamos que temos o direito a elas.
“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão” (Jó 33:23). Na tradução de J. N. Darby há uma nota de rodapé sobre a expressão “sua retidão”. Diz: “sua retidão em julgar a si mesmo”. Oh, por aquele “dentre mil” que ajudará os santos de Deus, trazendo-os à presença do Senhor para que eles se julguem, para que se vejam à luz de Deus. Eliú é esse tal. O resultado é um benefício notável para Jó, porque Eliú o leva à presença do Senhor, e ali ele se julga e recebe o benefício.
Segunda alegação de Jó e a justiça
“Porque Jó disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito. Apesar do meu direito sou considerado mentiroso” (Jó 34:5‑6). Jó reivindica o direito de fazer seu próprio julgamento em uma questão entre ele e Deus. Isso é errado. Jó está alegando que Deus é injusto, porque ele é justo e, no entanto, Deus não o está tratando de maneira diferente do que está tratando os iníquos.
Eliú responde: “Que homem há como Jó, que... anda com homens ímpios? Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus. Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade! Porque, segundo a obra do homem, Ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho. Também, na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo”. Novamente Eliú defende os direitos soberanos de Deus. Deus é justo. (Deus ser justo e soberano é o fundamento de toda moralidade). Deus é soberano, e por isso nunca devemos julgar o que Ele faz. Deus nos julga; nunca devemos julgá-Lo.
Embora o homem não tenha o direito de julgar contra Deus, Eliú sustenta a verdade sobre Deus. Deus nunca faz impiedade; o Todo-Poderoso nunca perverte o juízo. Aquele em cujas mãos toda a Terra está segurada é o “Justo”. Seus olhos estão sobre o homem, vendo tudo o que ele faz. E quando Ele escolhe agir, Ele não estabelece um tribunal, mas age de acordo com Seus direitos e poder soberanos. Ele ouve os gritos dos aflitos e age em favor deles no julgamento dos ímpios.
A terceira alegação e rebelião de Jó
Jó disse: “Suportei castigo, não ofenderei mais. O que não vejo, ensina-me Tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer” (Jó 34:31-32).
Eliú responde: “Virá de ti como há de ser a recompensa, para que tu a rejeites? Faze tu, pois, e não eu, a escolha; fala logo o que sabes... Jó falou sem conhecimento; e às suas palavras falta prudência. Pai meu! Provado seja Jó até ao fim, pelas suas respostas próprias de homens malignos. Porque ao seu pecado acrescenta a transgressão; entre nós bate palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras”. Quanto mais Jó argumentava e multiplicava suas palavras, mais ele pecava. Eliú acusa Jó corretamente de recusar o julgamento de Deus em Seus caminhos com Jó. Deus deveria estar limitado pelo julgamento de Jó sobre o assunto?
Nesse ponto, Eliú introduz outro pensamento importante na conversa que o Senhor acrescenta mais tarde e que é crucial para conhecer e aceitar os julgamentos de Deus. Ele diz que Jó tem falado sem conhecimento e sem inteligência (vs. 35 – JND). Somente Deus, como soberano, é onisciente. Todos os julgamentos que Ele faz são baseados em Seu perfeito e completo conhecimento de tudo. O homem nunca sabe tudo. Consequentemente, o homem não tem o direito de questionar qualquer julgamento de Deus. Os julgamentos corretos dependem do conhecimento correto.
No capítulo 28, Jó apresenta um excelente e interessante tratado sobre sabedoria, concluindo com a afirmação: “E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência”. Podemos entender como Jó entendia a respeito da sabedoria e ainda temos que aprender a mesma lição que ele. Sabiamente, Jó temeu ao Senhor e, com inteligência, se afastou do mal. Deus diz que isso era assim logo no primeiro versículo do livro. No entanto, Jó condenou erroneamente a Deus. Por quê? Sabedoria e entendimento requerem conhecimento. Ninguém tem pleno conhecimento. Um homem adequadamente sábio e entendido é aquele que aprende a não confiar em seu próprio conhecimento, mas que sempre depende de Deus, o Único que tudo conhece. Ele é um homem que confia nos julgamentos de Deus e não em seu próprio entendimento ou sabedoria. Ao contrário de Eliú, os três amigos de Jó obtiveram conhecimento de suas próprias experiências, e não de Deus.
Quarta alegação e arrogância de Jó
Na quarta vez que Eliú cita Jó, ele diz: “Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus? Porque disseste: De que me serviria? Que proveito tiraria mais do que do meu pecado?” (Jó 35:2-3).
Jó comparou como ele agiu com o modo como Deus agiu e julgou que suas ações eram mais justas que as de Deus. Tendo ido tão longe em seu pensamento, ele questiona a vantagem de ser justo, uma vez que, em sua mente, Deus não o tratou melhor do que tratava um homem pecador.
Ao responder, Eliú primeiro inverte as declarações de Jó, para que a questão seja vista sob a perspectiva de Deus, em vez da de Jó – um princípio muito útil a seguir na busca de entender as coisas espirituais. Jó dissera: Que proveito tenho para mim ser justo? Eliú respondeu: Que proveito tem para Deus se você é justo? O que Ele ganha? “Se fores justo, que Lhe darás, ou que receberá Ele da tua mão?”
Jó admitiu que não conseguia ver Deus no assunto. Ele procurou por Ele e não O encontrou. Por que Deus não estava saindo para tratar com ele cara a cara com Alguém para agir como juiz? A isto Eliú respondeu: “E quanto ao que disseste, que O não verás, juízo há perante Ele; por isso espera n’Ele. Mas agora, porque a Sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera a arrogância. Logo Jó em vão abre a sua boca, e sem ciência multiplica palavras” (Jó 35:14-16).
A declaração de Eliú ilustra que Deus não é apenas soberano em Seus caminhos, mas em Seu tempo. Quando não vemos, então “espera n’Ele”. Eliú acusa Jó de arrogância. Enquanto Deus está corretamente irado com o homem, Ele é paciente e longânimo em Seus caminhos com ele. O homem usa esse tempo de paciência para se tornar ousado e arrogante em seus julgamentos e ações contra Deus.
Defendendo a justiça de Deus
Depois de responder às afirmações específicas de Jó, Eliú continua a falar: “ao meu Criador atribuirei a justiça”. Para resumir o que Eliú diz: “Deus é mui poderoso”. “Eis que Deus é excelso em Seu poder; quem ensina como Ele?” “Deus é grande, e nós não O compreendemos”. “Deus maravilhosamente faz grandes coisas, que nós não podemos compreender”. Nos Seus caminhos conosco, Ele pode usar Sua criação “por vara, ou para a Sua terra, ou por misericórdia”. Deus “tem perfeito conhecimento”. O que podemos ensinar a Deus? Ele conclui: “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça. Por isso O temem os homens; Ele não respeita os que se julgam sábios de coração”.
D. F. Rule
Calvinismo e Arminianismo
Com a ajuda do Senhor, gostaríamos de considerar os assuntos da soberania de Deus e da responsabilidade do homem. Os dois assuntos são frequentemente colocados em oposição um ao outro, como se fossem mutuamente contraditórios, e não complementares. Ambos são verdadeiros e são encontrados lado a lado na Palavra de Deus. Partidos e seitas foram formados em torno de cada tema, enquanto muito calor e pouca luz têm sido gerados em ambos os lados.
Uma controvérsia tempestuosa surgiu na última parte do século XVI entre os seguidores de João Calvino (1509-1564) e Jacobus Arminius, cujo nome real era Jacob Harmensen ou Herrnansz (1560-1609). A batalha entre calvinistas e arminianos ainda está em andamento.
Calvinismo
Calvino viu e ensinou a ruína total do homem, e que desde que Adão caiu, toda a sua posteridade nasceu em pecado e possuía uma vontade oposta a Deus. Assim, o Calvinismo ensinou que a humanidade estava irremediavelmente perdida, a menos que Deus interviesse e salvasse alguns, mas que Ele fez isso, primeiro por Sua própria escolha soberana em uma eternidade passada e depois dando-lhes fé em Cristo quando estavam vivendo na Terra. Calvim então afirmou falsamente que aqueles que não foram eleitos para a salvação foram eleitos para o inferno – um exemplo de onde a razão humana leva ao erro ao tentar reconciliar, pela mente humana, o que está além da mente humana para compreender.
Arminianismo
Armínio negou que o homem estivesse além do poder de ajudar a si mesmo, afirmando que ele poderia, exercendo seu próprio livre-arbítrio, melhorar a si mesmo, e que pelo menos ele tinha o poder de aceitar o bem e recusar o mal – exercer fé em Cristo ou rejeitá-Lo. Isso geralmente é chamado de doutrina do “livre-arbítrio”.
Livre-arbítrio
Será que o homem hoje possui algo como livre-arbítrio no sentido moral? Não! Adão foi colocado no Jardim do Éden por seu Criador. Ele era perfeito na inocência, pois Deus, depois de criá-lo, olhou para Sua criação e disse que era tudo “muito bom”. Adão estava feliz no relacionamento com o seu Criador, mas, para permanecer assim, ele precisava andar em obediência, pois essa era a única coisa correta para uma criatura. Ele não foi forçado externamente a permanecer naquele estado; havia apenas um teste aplicado a ele em matéria de obediência. Ele deveria se abster do fruto de apenas uma árvore, e Deus o advertiu das consequências da desobediência. Assim que ele exerceu sua própria vontade, ele pecou. Isso não foi tudo; ele se tornou um pecador com uma vontade oposta a Deus. A partir desse momento, toda a humanidade (com a única exceção do “Senhor do céu”, “o segundo Homem”, “o último Adão”) foi disposta ao mal da vontade própria. Uma vez que a vontade do homem está agora inclinada para o mal, como ele pode, pelo exercício dela, voltar-se a Deus? Vamos citar o que alguém disse sobre o livre-arbítrio:
“A afirmação de ‘um homem estar realmente pronto para escolher entre o mal e o bem’... é algo igualmente horrível e absurdo, porque supõe que o bem e o mal estão do lado de fora dele e que ele próprio não está em nenhum dos dois. Se ele, em sua disposição, é um ou outro, a escolha já está aí. Para ter uma escolha justa, ele deve ser pessoalmente indiferente, mas estar em um estado de indiferença ao bem e ao mal é algo totalmente horrível. Se um homem tem uma inclinação, sua escolha não é livre; um livre-arbítrio é um absurdo do ponto de vista moral, porque, se ele tem uma vontade, ele deseja alguma coisa. Deus pode desejar criar. Mas vontade nas coisas morais (no homem) significa ou a vontade própria, que é pecado (pois devemos obedecer), ou uma inclinação para algo, que é realmente uma escolha feita no que diz respeito à vontade.”
“Dizer que ele (o homem) não está inclinado ao mal é negar toda a Escritura e todo fato; para torná-lo livre para escolher, ele teria que ser ainda indiferente – indiferente e não ter preferência – quanto ao bem e ao mal, o que não é verdade, pois as concupiscências malignas e a vontade própria estão aí, os dois grandes elementos do pecado, e se isso fosse verdade seria completamente horrível.”
“A doutrina do livre-arbítrio favorece a doutrina da pretensão do homem natural de não estar completamente perdido, pois é realmente nisso que ela resulta. Todos os homens que nunca foram profundamente convencidos do pecado, todas as pessoas com quem essa convicção se baseia em pecados grosseiros e exteriores, acreditam mais ou menos no livre-arbítrio. Você sabe que é o dogma... de todos os raciocinadores, de todos os filósofos. Mas essa ideia muda completamente toda a ideia do Cristianismo e a perverte completamente.”
A necessidade de um novo nascimento
Se o homem natural pudesse, pelo exercício de sua própria vontade, colocar-se sob favor diante de Deus, então não seria verdade que “os que estão na carne não podem agradar a Deus”, mas a Palavra de Deus é verdadeira. Igualmente negaria a declaração positiva: “Necessário vos é nascer de novo”. Por que o Senhor disse: “Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou não o trouxer”? Porque o coração do homem está tão distante de Deus que, se o homem fosse deixado a si mesmo, ele nunca viria. É verdade, como na parábola, que quando o convite chega aos pecadores necessitados, “todos à uma começaram a escusar-se” (Lc 14:18). Eles não apenas têm uma natureza disposta ao mal, mas não estão dispostos a aceitar o convite gracioso de Deus, não, nem mesmo com Deus suplicando que eles venham. Se não fosse pela graça soberana que atraiu qualquer um de nós a Cristo, ninguém teria participado do dom gratuito de Deus.
A Escritura deixa completamente de lado qualquer bem no homem, como nosso Senhor disse: “não quereis vir a Mim”, nem mesmo quando Ele os procurava graciosamente. A vontade estava em falta. Novamente, lemos sobre os Seus: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:13). E em Tiago 1:18: “Segundo a Sua vontade, Ele nos gerou pela Palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das Suas criaturas”. Mesmo a fé em crer n’Ele não vem de nós mesmos, mas “é dom de Deus” (veja Ef 2:8). Quando os redimidos em glória prestam louvor e adoração ao Cordeiro que os salvou (Ap 5), não haverá ninguém presente que tenha sido salvo exercendo sua própria vontade ou à parte da graça divina que nos constrangeu. Ninguém dos que estiverem lá manchará esse novo cântico por assumir qualquer crédito para si próprio, nem mesmo por sua fé. Todos lá estarão como o evidente troféu da graça de Deus, assim como Mefibosete na casa de Davi era uma evidência visível da bondade de Davi (2 Sm 9).
Christian Truth, Vol. 12 (adaptado)
Os Caminhos Soberanos de Deus
A história de Edom ao longo da Escritura é de muito interesse, pois apresenta os caminhos de Deus com um povo aparentado com Israel, mas cujas sortes divergiram cada vez mais das do povo escolhido de Deus. Nesta história, vemos cuidadosamente mantido o princípio de responsabilidade moral que Deus nunca abandona, mas o conserva inviolavelmente verdadeiro e santo. Isso é igualmente aplicável aos inimigos de Deus e aos Seus amigos. A sabedoria soberana de Deus não precisa aprender nada do homem, por um lado, nem fundamento da parte do homem para decidir Sua vontade, por outro. Ele exerceu Sua própria mente e propósito, mesmo antes do nascimento dos filhos de Isaque. Foi ordenado que o caráter da carne fosse manifesto, não apenas onde havia iniquidade na família, mas onde havia fé. Isaque se destaca por sua piedade na calma reservada de uma família piedosa, tão decididamente quanto Abraão por uma comunhão mais forte e mais entregue a Deus. A fé de Abraão foi exercida em um campo mais variado e distinto. Havia mais testemunho público no homem a quem Deus chamou de Seu amigo. Como Isaque estava mais reservado, ele também estava propenso a ceder demais quando tentado. Ele foi o herdeiro escolhido, sendo Ismael, o filho da escrava, colocado de lado. Na família de Isaque, foi entre os filhos gêmeos Jacó e Esaú, do mesmo pai e mãe, que Deus novamente exerceu Sua soberania.
É impossível encontrar uma maior proximidade em termos de circunstância! Isso, portanto, torna ainda mais impressionante quando encontramos Deus, antes mesmo do nascimento deles, pronunciando sobre o destino final e distinto dos dois filhos. Se Deus não tivesse Se agradado em escolher, é evidente que os dois não poderiam ter exatamente o mesmo lugar. Deus deveria então abolir o Seu título? Ou deixar para o homem escolher, tendo apenas Satanás para influenciar? Era, então, muito apropriado que Ele escolhesse qual teria o lugar superior. Ambos não poderiam ser investidos com direitos de primogenitura; é preciso que um seja escolhido para o melhor lugar. Qual deve prevalecer? A ordem da carne ou da escolha de Deus? Qual é a mais correta? Certamente Deus, qualquer que seja a Sua graça, sempre mantém Sua própria soberania. Ele escolheu, portanto, Jacó, o mais jovem, e não Esaú, pois isso só poderia ter dado importância ao homem em carne – homem como ele está em sua condição caída sem Deus. Impossível que Ele tratasse com leviandade a queda ou de suas consequências: portanto, Ele, escolhe e age.
O julgamento que se segue
Ao mesmo tempo, é notável que, enquanto o primeiro livro da Bíblia aponta a escolha de Deus desde o princípio, Ele não Se pronuncia moralmente sobre Esaú de maneira completa e definitiva até o último livro do Velho Testamento. Somente em Malaquias ele diz: “Eu odiei Esaú”. A Escritura nunca apresenta Deus dizendo, antes da criança nascer e ter manifestado sua iniquidade e orgulhosa malícia: “Odiei a Esaú”. É aí que a mente do homem se mostra tão falsa. Não significa, no entanto, que a escolha de Deus tenha sido determinada pelo caráter dos indivíduos. Isso tornaria o homem o governante, e não Deus. Não é assim; A escolha de Deus flui de Sua própria sabedoria e natureza. Ela convém e é digna de Si mesmo, mas a reprovação de qualquer homem e de todo incrédulo nunca é uma questão da soberania de Deus. É a escolha de Deus fazer o bem, onde e como Ele quiser; nunca é o propósito de Sua vontade odiar qualquer homem. Não existe tal doutrina na Bíblia. A eleição de Deus é uma verdade claríssima e bíblica. Mas a consequência que os homens extraem da eleição, a saber, a reprovação dos não eleitos, é uma mera reprodução do fatalismo. É a dedução infundada do raciocínio do homem nas coisas divinas. Mas o raciocínio do homem nas coisas de Deus, não sendo baseado nas revelações divinas de Sua mente em Sua Palavra, é essencialmente e invariavelmente falso. É impossível ao homem raciocinar com justiça, de forma abstrata, acerca da vontade de Deus. A única base segura para o homem é aderir à simples exposição das declarações de Deus, e isso pela simples razão de que um homem só pode raciocinar a partir de sua própria mente, o que está muito longe de ser a mente de Deus. Raciocinar significa dedução de acordo com as leis necessárias da mente humana. Aqui, contudo, sendo o fundamento a vontade de Deus, para raciocinar corretamente é preciso fazê-lo a partir do que Deus é e do que Ele diz. O perigo está em concluir a partir do que o homem é e do que o homem sente. Essa é a diferença essencial entre o que é confiável e o que não vale nada em questões desse tipo. O homem deve se submeter a ser julgado por Deus e Sua Palavra, e não procurar julgar por Ele. Nenhum homem é competente para pensar ou falar em Seu lugar. Mas podemos e devemos aprender o que Ele nos disse de Si mesmo e de Seus caminhos em Sua Palavra.
O endurecimento do coração
Não há grandes dificuldades quanto ao que a Escritura diz a respeito do endurecimento do coração de Faraó. Pode-se demonstrar prontamente que tal trato judicial da parte de Deus é inquestionavelmente justo. A Escritura nos permite ver o caráter orgulhoso, cruel e blasfemo de Faraó antes do endurecimento; tampouco ela fala do Senhor endurecendo seu coração até que ele já tivesse se comprometido totalmente com a vontade própria e com o desprezo de Deus. A imposição de endurecimento veio de Deus por causa da oposição rebelde às Suas demandas e autoridade. Deus pode tratar com um homem hoje dessa maneira, mas Ele nunca o endurece na primeira ocasião para que ele não creia. Mas depois que ele ouviu e se recusou a crer, Deus o selou em um estado de obstinação. Em nenhum caso, porém, este é o primeiro ato de Deus, mas sim o último, judicial e retributivo, quando o homem despreza um testemunho adequado e fiel.
W. Kelly (adaptado)
Sua Escolha
Quão doce e maravilhoso é este lugar
Com Cristo dentro das portas,
Enquanto o amor eterno revela
O melhor de seus tesouros.
Aqui toda a misericórdia de nosso Deus
Com imensa compaixão transborda;
E a paz e o perdão por meio de Seu sangue
São alimento para as almas redimidas.
Enquanto o nosso coração todo em oração e cânticos
Se une para admirar o banquete,
Cada um se pergunta com a língua agradecida:
“Senhor, por que sou um convidado?”
“Por que fui feito para ouvir Sua voz
E entrar enquanto há lugar,
Quando milhares fazem uma escolha miserável
E preferem morrer de fome a entrar?”
Foi o mesmo amor que preparou o banquete,
Que docemente me forçou a entrar,
Caso contrário, eu ainda teria me recusado a provar
E perecido em meu pecado.
“Desprezas tu as riquezas da Sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?”
Romanos 2:4




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